O espetáculo de uma vida: Assis Marinho inaugura mostra na Pinacoteca Potiguar

Dionisio OutedaCulturaHá 2 semanas53 Visualizações

“O circo me serve para aliviar as tristezas e as dores que estão contidas em minha alma”. Com esta frase, carregada de emoção e poesia, o artista Assis Marinho revela o que está para além das telas, dos pincéis e dos personagens que colorem os quadros. Neste sábado (28), a partir das 10h, a Pinacoteca Potiguar abre suas portas para a exposição Hoje Tem Espetáculo – O Universo Poético de Assis Marinho, que reflete uma trajetória marcada inicialmente pelas dificuldades causadas pela seca do sertão e, posteriormente, pela subjetividade da vida adulta.

Seridoense de Cubati, nascido no dia 4 de fevereiro de 1960, na Paraíba, Assis Marinho migrou aos cinco anos de idade com a família para o município de São João do Sabugi, no Seridó potiguar, tendo realizado, a pé, a travessia entre os estados. Muito menino ainda, fugiu para Natal, onde passou a surpreender as pessoas com seu talento nato e sua arte genuína, reproduzindo seus sentimentos ao dar vida aos seres anônimos da vida real, em meio à recriação de figuras religiosas icônicas, como São Francisco de Assis e Jesus Cristo, e personagens da literatura universal, como é o caso de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.

Com curadoria de Manoel Onofre Neto, expografia e identidade visual do Estúdio Barros, a mostra Hoje Tem Espetáculo conta com apoio institucional do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, da Fundação José Augusto e do Palácio Potengi, que abriga a Pinacoteca. Autodidata, Assis Marinho construiu uma linguagem própria a partir da infância e adolescência entre as paisagens e asperezas do Seridó potiguar. Com traços sintéticos, paleta contida e grande intensidade emocional, sua produção é atravessada por memórias do sertão, fé popular, arte circense e os reflexos de uma biografia marcada por perdas profundas.

“Esta exposição é um convite para adentrar um universo singular, onde a arte nasce da experiência crua, da simplicidade que desvela complexidades e da beleza que brota da dor”,  afirma Manoel Onofre Neto no texto curatorial. “Assis não pinta à distância, ele se projeta em cada obra, emprestando sua pele e sua alma a personagens que espelham sua trajetória”, reflete.

A mostra é fruto de iniciativa conjunta – coordenada pelo curador – que reafirma o papel social da arte em acolher, registrar e transformar vidas, e conta também com apoio do Sebrae-RN, do advogado Robson Maia Lins, do Conselho Estadual de Cultura do RN, e ainda Quadros Rios e Cuidados Assistenciais Lar Geriátrico.

O olhar então se amplia em Entre Marés – Desfrute à Beira-mar, quando a chegada a Natal introduz o mar como horizonte. As jangadas, o trabalho dos pescadores e a mística litorânea entram em cena, e a obra “Santa Ceia dos Pescadores” sintetiza esse encontro.  Depois, o ato Em Torno do Beco – Boêmia e Resistência mergulha no Beco da Lama, reduto cultural no bairro Cidade Alta. Nesse ato, dialogam as esculturas do mestre seridoense Ivan do Maxixe, que receberam intervenções de Assis e outros artistas.

No Grand Finale, todos os personagens retornam ao centro do circo. “É aqui que o Palhaço, uma representação sintética de Assis, faz sua estreia revelando que em cada um de nós há um circo montado, feito de dramas e redenções. O artista cumpriu seu papel. Agora, o espetáculo é seu”, escreve o curador.

Sobre o artista

Francisco de Assis Marinho de Farias nasceu em 1960 em Cubati/PB e, aos cinco anos, migrou com a família para São João do Sabugi/RN para fugir da seca. Ao longo de sua trajetória, desenvolveu uma linguagem expressionista de forte matriz regional. Sua obra retrata retirantes, sertanejos, pescadores e figuras do imaginário popular e do sagrado, afirmando-se como um sensível cronista visual da identidade potiguar.

Como descreve Manoel Onofre, ele pode ser considerado como um dos mais populares artistas do Rio Grande do Norte, dada a abrangência de sua arte, que ocupa paredes que vão desde os palácios oficiais, à exemplo da Governadoria, e de muitos outros órgãos e instituições, tanto quanto bares, sebos, galerias, bibliotecas, coleções particulares e pessoas em geral, que se familiarizam com sua arte. Segundo o artista, ele estima que produziu entre 35 a 40 mil obras. “Pela facilidade e agilidade que eu produzo, só Deus saberia explicar com mais sabedoria”, deduz.

Ao longo da vida, tragédias familiares desencadearam um quadro de alcoolismo que impactou sua trajetória pessoal e profissional. Hoje, acolhido em uma casa de apoio em Emaús, na Região Metropolitana de Natal, ele voltou a produzir com regularidade e a mostra surge como uma forma de ampliar sua visibilidade e fortalecer sua permanência no circuito artístico, visto que fazia muitos anos desde a sua última exposição individual.

SERVIÇO: Exposição Hoje Tem Espetáculo – O Universo Poético de Assis Marinho.

Data: Abertura – 28 de fevereiro de 2026, às 10h. A visitação seguirá até o dia 29 de março.

Funcionamento: De terça a sexta: 8h às 17h | Sábado e domingo: 9h às 16h
Acesso gratuito.

Local: Pinacoteca Potiguar. Praça Sete de Setembro, s/n. Cidade Alta, Natal/RN.

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