O homem total, por Rubens Lemos Filho

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Rubens Lemos

Jornalista

A maior lição de Johan Cruijff na sua elegância de gazela foi provar que futebol sem alegria é mediocridade em sangria. A liberdade era o brado das chuteiras do holandês subversivo, senhor de todos os espaços pela conta própria infinita da sua genialidade criativa. Cruijff surgiu no Ajax estupendo da primeira metade dos anos 1970, humilhou a retranca brasileira de Zagallo em 1974 na Holanda de carrossel e perdeu como Zizinho em 1950, Puskas em 1954 e Zico em 1982, a Copa do Mundo que, se pudesse, teria se entregado nua às suas mãos.

O charme de Cruijff foi efêmero como os sonhos bons. Seu jogo provocava nos esquemáticos a dor aguda da lâmina invejosa. Cruijff bateu(com raro efeito) na bola e mandou aos céus das favas as teorias de prancheta. Não haveria 4-3-3, 4-2-4, 4-4-2 ou 3-6-1 que parasse sua classe fantasmagórica. O holandês de olhar de Anthony Hopkins(o ator de Hannibal) estava em qualquer lugar, a qualquer hora, quando bem entendesse, passando pelos marcadores transformados em dominós inúteis.

Na primeira Copa que assisti, em 1978, faltava Cruijff. Líder do Barcelona da Espanha, se recusou a disputar o Mundial na Argentina, subjugada por uma ditadura feroz. Cruijff pensava coletivamente dentro e fora de campo. Sem criar estereótipo de símbolo da resistência. Era convicto no espírito brincalhão do ludo com os pés. Na inventividade destruída pelos patetas de beirada de campo. O futebol colorido pelas tintas do raciocínio em fração.

Cruijff reconhecia virtudes.Estimulava-as. Romário, por ele comandado no Barça e batizado de Gênio da Grande Área, ganhou uma agradável aposta ao marcar três gols no Real Madrid. Romário queria uns dias a mais de folga no Rio de Janeiro e Cruijff cumpriu o desafio, sem esconder que Romário era “maravilhoso” e “diferente”. A rebeldia do Baixinho representava a imagem autobiográfica do indomável que usava laranja. Cruijff morreu. O câncer conseguiu abatê-lo. É correr aos arquivos para revê-lo, imperativo, fazendeiro do quadrilátero latifúndio gramado. A suavidade instintiva do futebol. A totalidade do homem.

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Rubens Lemos

Jornalista

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