Blatter ficou decepcionado por ninguém relembrar suas contribuições no congresso da Fifa

Por Leonardo de Escudeiro (Trivela)

Pobre Joseph Blatter. Dedicou 18 anos de serviços à Fifa como presidente de tão respeitada instituição, levando o esporte a um patamar nunca alcançado, por méritos próprios, e agora, perseguido pelo mundo, sequer um reconhecimento de toda sua contribuição ele consegue. Essa narrativa, ao mesmo tempo fantasiosa, é a que passa pela cabeça do suíço. Em entrevista ao jornal Blick, o ex-presidente reconheceu que sua presença no último congresso da Fifa, em 25 de fevereiro, que elegeu Gianni Infantino como presidente, seria descabido, considerando o momento pelo qual passa, mas ficou decepcionado que ninguém citou seu legado para o futebol.

Investigado pela polícia suíça por causa de um pagamento feito a Platini, Blatter acabou banido do futebol por oito anos, ao lado do francês. Além do episódio recente, o ex-presidente da Fifa foi constantemente visto com desconfiança pela opinião pública, mas mesmo sua derrocada política não mudou o discurso do dirigente, que parece viver em uma realidade paralela.

“Acho que eu teria causado um pouco de distúrbio no congresso se eu estivesse lá. Mas eu esperava que, no mínimo, algo sobre o meu trabalho tivesse sido dito pelo líder do congresso, no início ou no fim. ‘Nem mesmo um tchau-tchau’, escreveu, apropriadamente, um jornalista. Sim, dois candidatos me mencionaram – um que se retirou da eleição (Tokyo Sexwale) e outro que teve poucos votos (Jérôme Champagne)”, comentou Blatter, relembrando declarações anteriores à eleição, quando, por exemplo, Champagne exaltou os avanços da Fifa sob o comando do suíço.

As palavras de Blatter são tão desconectadas da realidade que a impressão que ele passa é de que, com declarações leves, bem-humoradas e despudoradas, está tentando reajustar a sua imagem para a de uma figura caricata em entrevistas. “Eu não preciso de uma grande despedida. Meu único desejo, se meu trabalho foi feito, é de que eu seja reconhecido no próximo congresso ou no seguinte ou no congresso de daqui a 20 anos. Como eu entrarei para a história, é o tempo que irá decidir”, projetou o suíço. Talvez Blatter espere ser lembrado como o ex-presidente das entrevistas bobas na posteridade – algo que será difícil quando o Fifagate, maior escândalo da história da instituição, estourou durante seu mandato.

Outra estratégia utilizada por Blatter em suas entrevistas após a saída do comando da entidade é tentar fazer paralelos entre suas facetas política e privada, com anedotas de sua vida pessoal, como quando falou de suas ex-namoradas. Desta vez, o exemplo foi o distanciamento de alguns amigos, para explicar sua chateação com a falta de citações a seu trabalho no congresso. “Vou dar um exemplo: um amigo me convidou para jantar três vezes. Nas três vezes, ele cancelou de última hora. Isso diz muito. Ou com outros, que senti através do telefone que me respondiam desconsideradamente. Mas também houve gestos que me deixaram muito felizes.”

Se o objetivo de Blatter for tentar construir uma imagem mais leve, receio que esteja tendo algum sucesso com isso, já que, cada vez mais, seu lado patético tem dividido espaço com o lado abominável. Mas a cada oportunidade em que isso acontecer, vale a pena lembrar que o suíço não chegou aonde está agora sem motivos.

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