Lá em casa, futebol é coisa de mulher

Por Gabriela Moreira (EspnW.espn.uol.com.br)

Meu primeiro contato com o futebol foi no meio dos homens. Dos mais rústicos deles, o homem rural. Esperava com ansiedade o alarme da fazenda que tocava pontualmente às 4 da tarde indicando que a lida acabara. Era quando dava-se início à pelada dos funcionários, que eu, com meus cerca de 10 anos, menina magrela e filha do patrão, já os esperava no campinho para dar início à peleja.

Lembro-me bem do pior zagueiro que já enfrentei, de nome Pezão. Eu jogava entre eles, como se fosse um deles. De tênis, claro. Mas as marcas daquela rotina meus pés guardam até hoje. Assim cresci e o futebol foi participando da minha vida como se eu participasse dele.

Meu pai, homem da roça com visão cosmopolita, me incentivava. Tanto que morando em São Paulo me levou para aprender com Rivelino! Fui a reboque do irmão caçula. Não havia turma feminina na escola do inventor do elástico, mas ser um corpo estranho em território masculino não me intimidava desde os tempos do Pezão.

Foi Rivelino quem abriu as portas para minha primeira aventura internacional. Com uma carta de recomendação do “Reizinho” consegui vaga no “Ladies Cleats”, na tradução “Meninas de chuteiras”, time da cidade de Atlanta, nos Estados Unidos.

Depois de uma temporada na terra em que futebol com os pés é coisa de mulher, voltei para o Brasil. Agora no Rio as chuteiras já faziam parte do guarda-roupas. Queria mais. Cheguei a fazer peneiras e até passar um tempo no badalado time de Susana Werner, nas Laranjeiras. Mas recuei. Nunca seria Marta e sabia disso. Tampouco o futebol por aqui se parecia com os Estados Unidos para as mulheres. Era melhor deixar os ideais para o campo de peladas.

 

Assim nasceu o Grama na Calcinha. Parece provocação, e é. Nada de batom, salto alto e afins. A gente joga sério. Ops, quase falei “joga que nem homem”, mas é como Mulher, mesmo, com M maiúsculo. Com vontade, do jeito que for, mesmo que a consequência da jogada seja uma grama na calcinha.O nome também é uma paródia ao episódio político em que certo parlamentar foi apanhado pela polícia levando dólares na cueca. Com a gente não tem disso, não. A gente leva é determinação na calcinha.

E exemplos. No meio disso tudo teve o nascimento do nosso mascote. Dante estava na minha barriga havia cinco meses quando o Grama disputava um dos títulos mais importantes da sua história, o bi campeonato pelos jornais O Globo / Extra. E ele teve ali sua primeira lição sobre a vida aqui fora. Entrei (entramos) em campo e vencemos. Dante já nasceu com oito gols de saldo.

Menino afortunado. Nasceu sabendo que futebol é coisa de mulher. Lá em casa, ele se programa, terça e quinta, sempre que o trabalho da mãe permite, tem compromisso marcado com o Grama. Nosso mascote saca o celular e filma os melhores lances. “Gol da mamãe”, grita sempre como se fosse uma final de campeonato.

Na última quarta, foi diferente. Parecia final de Copa do Mundo. Para mim e para ele. Mochila pronta, sem esquecer o sanduíche na lancheira do MacQueen, fomos os dois para o Maior do Mundo, mesmo que não o seja mais. Naquele dia foi.

Comemoração ensaiada, só precisava marcar. E marquei. Duas vezes, de esquerda e de direita. Quem lembra do Bebeto embalando Matheus em 94, pode refazer na memória minha comemoração. Só que, desculpe Bebeto, quem pariu o que embalou, fui eu. E no Maracanã!

E teve mais. As arquibancadas vazias foram perfeitas para escutar o único canto que me importava naquele momento: “Ôôô vai pra cima delas Mamãe”. Aos cinco anos, o presidente da minha torcida organizada já sabe: futebol é coisa de mulher, também.

Meus sonhos se transformaram igualmente. Ser uma intrusa no meio dos homens continua sendo, por vezes, tão duro como nos tempos do Pezão, mas cada dia mais natural.

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