O Fanático e o Mercenário

Por André Kfouri (Blog do André Kfouri)

A lógica distorcida do fanático do futebol merece um estudo profundo. O fundamentalismo cria leis não escritas e determina códigos para a conduta alheia, mandamentos que levam em consideração apenas a vaidade dos que se consideram representantes dos clubes que escolheram. São ombudsmen autodeclarados, vigilantes da ética equivocada que pretende precificar o “amor à camisa”, condenando jogadores que exploram profissionalmente o mercado em que operam, mas absolvendo os espertos que o fraudam.

Robinho é o último futebolista renomeado como “mercenário” por quem o idolatrava até a semana passada. Seu crime? Escolher trabalhar em um clube diferente daquele em que nasceu, tornou-se conhecido, viveu e proporcionou alegrias. Como se a camisa do Santos fosse uma camisa de força, eternamente agarrada a seu corpo, impedindo-o de seguir sua carreira em um ambiente farto de opções. Note-se que não é o caso de um jogador que se nega a cumprir o que assinou ou obedecer as regras que devem valer para todos. Não. Robinho cometeu a atrocidade de não voltar da China para o Santos, com o agravante de ter negociado com o clube que deveria, na ótica do fanático, ser o único lugar no Brasil no qual ele jamais pensou em jogar.

A história das conversas dos representantes de Robinho com os clubes interessados em repatriá-lo não revela uma dinâmica entre monges preocupados com o bem-estar do próximo. E como é frequente em negociações que não terminam em acordo, aqueles que não se chamam Atlético Mineiro saíram do processo decepcionados. Segundo se conta, o estafe de Robinho poderia ter sido mais direto, mais compreensivo e até mais sincero, mas não se deve perder de vista quem corteja e quem é cortejado. E se Robinho agiu como um jogador mais valorizado do que realmente é, a responsabilidade deve ser dividida com quem permitiu – e alimentou – tal postura. Assim é o jogo nas salas de reuniões.

Por mais obscena que seja sua remuneração (e por mais delicada que seja a divulgação de valores em um país como o Brasil), é impossível que um jogador de futebol roube a instituição que o contrata. Cabe a quem administra orçamentos zelar pela sustentabilidade dos compromissos que celebra, pois, ainda que haja excessos em pedidas salariais, e há, nenhum clube é obrigado a abrir uma negociação ou conclui-la a contragosto. É ridículo que jogadores se tornem reféns do preço associado, por outros, à própria lealdade. Sim, há aqueles – poucos – que deixam dinheiro sobre a mesa em nome de relações sentimentais. Exercem seu direito, assim como os que pensam primeiro no número. Quem sangra o clube é o cartola que embolsa comissões, desvia recursos e assina contratos impagáveis, mas o fanático do futebol não parece preocupado com isso.

O “torcedor” que hoje acusa Robinho de ser mercenário por escolher outro clube faria o mesmo se ele voltasse ao Santos e perdesse um pênalti em um clássico. Ou não “respeitasse a camisa”, seja o que for isso. É provável que essas mesmas figuras protestassem em frente à casa de Robinho, ou cercassem seu carro na saída do treino. O mundo dos fanáticos só aceita as próprias verdades.

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