O que aconteceu quando o Campeonato Brasileiro foi dividido entre duas emissoras

Por Bruno Bonsanti (Trivela)

Os contratos de direitos de transmissão dos clubes brasileiros terminam apenas em 2019, mas a briga pelas partidas nos bastidores já está quente. Com o forte investimento da Turner, o Esporte Interativo tem uma proposta financeira melhor que das concorrentes pelos direitos de TV fechada, e o Santos, segundo seu vice-presidente César Conforti, já decidiu aceitá-la. Outros que podem seguir pelo mesmo caminho são Internacional, Bahia, Atlético Paranaense e Coritiba.

Caso esse cenário de divisão se confirme, algumas partidas do Brasileirão podem não ter transmissão porque, de acordo com a legislação brasileira, os dois clubes envolvidos nela precisam ceder o direito de transmissão a emissora que quiser passar o jogo. O Esporte Interativo, por exemplo, só poderia mostrar os encontros entre o Santos e outros times com os quais conseguir fechar até a primeira rodada da edição de 2019.

É um problema raro, mas não inédito para o futebol brasileiro. Em 1997, aconteceu a mesma coisa. Era o início da TV a cabo no Brasil e duas emissoras concorriam cabeça a cabeça pelos direitos: o SporTV, canal da Globosat e da Rede Globo, e a ESPN Brasil, parceira da TVA e da Editora Abril.

A TVA Esportes, aliás, foi a antecessora da ESPN Brasil como a conhecemos hoje em dia. Em 1993, essa emissora fechou um contrato de exclusividade para a transmissão do Campeonato Brasileiro entre 1997 e 2001 com, as assinaturas da CBF e de membros do Clube dos 13. Mas o cenário mudou às vésperas do início do primeiro torneio nacional desse acordo. Fábio Koff foi alçado à presidência do Clube dos 13 em 1996 e passou a falar mais duro com as televisões. Proibiu a transmissão das partidas para as cidades onde elas estavam sendo realizadas, medida que perdura até hoje. Naquela mesma época, os clubes descobriram o que era o pay-per-view (que estreou justamente em 1997) e passaram a negociá-lo junto com os direitos de TV aberta e fechada.

Com uma parceria com o SBT, segundo o livro TV por assinatura: 20 anos de evolução, a TVA ainda tentou cobrir o problema da TV aberta, mas não tinha tecnologia suficiente para o pay-per-view. Em abril de 1997, o Clube dos 13 anunciou um acordo com a Globosat para a transmissão do Brasileiro em TV fechada. Acima de tudo, a proposta financeira apresentada pela Globo, muito superior ao contrato assinado em 1993, foi o que convenceu a entidade de Koff a mergulhar naquele imbróglio jurídico.

Uma batalha de liminares nos tribunais era a única coisa que poderia acontecer a partir do momento em que existiam dois contratos de exclusividade para os direitos de transmissão do mesmo torneio: um entre a CBF e a TVA e outro entre o Clube dos 13 e a Globo. “Esse contrato foi assinado entre a TVA e a CBF, sem a nossa concordância”, defendeu-se Fábio Koff, à Folha, em junho daquele ano.

Enquanto defendia-se na Justiça, a TVA se movimentou para acertar os direitos de transmissão dos times do Campeonato Brasileiro que não integravam o Clube dos 13. O Clube dos 11 era quem representava esses interesses e batia constantemente de frente com a entidade de Koff. Em abril daquele ano, o presidente do C11, Paulo Carneiro, também mandatário do Vitória, disse que o Clube dos 13 tinha “posições ditatoriais” e abandonou uma reunião com a CBF que deveria decidir a fórmula de disputa do Brasileirão. “A reunião de verdade aconteceu de manhã, entre eles, na sede do Flamengo”, disse à Folha.

O Clube dos 11, ou Associação Brasileira dos Clubes de Futebol, representava 12 equipes da Série A naquela temporada: Portuguesa, Juventude, Atlético-PR, Paraná, Coritiba, Guarani, Vitória, Goiás, América-RN, Criciúma, Sport e União São João. A TVA tinha uma boa relação com muitos desses clubes porque naquela época transmitia os estaduais de Goiás, Paraná, Bahia e Pernambuco.

O C11 reivindicava principalmente um lugar à mesa, mais poder de decisão e uma fatia maior do bolo de direitos de transmissão. Brigava por mais dinheiro da TV aberta. Chegou a ameaçar impedir a transmissão das partidas se não fosse procurado pelo C13 e pela Globo para discutir as suas cotas.  Koff, velho de guerra, deu um jeito de enfraquecer a oposição e incorporou três dessas equipes ao Clube dos 13 em junho de 1997: Sport, Guarani e Goiás. A desculpa oficial foi que 16 era um número melhor para organizar um campeonato, mas o próprio Koff admitiu que queria minar a resistência. “Se você tem 13 de um lado, e do outro tem 11 que não querem ceder, você tem que cooptar alguns”, disse.

A TVA ainda acreditava que conseguiria transmitir todos os jogos e foi acionada na Justiça pela Globosat. O Campeonato Brasileiro começou sem que a briga de liminares tivesse terminado. Na primeira rodada, as duas emissoras exibiram “exclusivamente” Corinthians e Internacional. Na terceira, o Palmeiras, presidido à época por Mustafá Contursi, muito próximo ao Clube dos 13, tentou impedir a entrada da equipe de transmissão da TVA no Palestra Itália em uma partida contra o Guarani.

“A gente escalava narrador, comentarista, dois repórteres e um advogado”, afirma José Trajano àTrivela, que era o diretor de esportes e de programação da ESPN Brasil em 1997. “Em um jogo do Palmeiras, estávamos com o caminhão na porta e não nos deixaram entrar O advogado foi com a liminar na delegacia, trouxe o delegado, que mandou abrir o portão. Entramos para transmitir o jogo. Passados uns quatro ou cinco dias, esse delegado liga para a TV contando que tinha sido transferido, certamente por pressão dos dirigentes do Palmeiras, para a casa do caralho”.

Era uma situação confusa em que um dia a TVA tinha liminar para transmitir as partidas, mas na manhã seguinte esse documento era anulado por uma outra liminar concedida à Globosat. “Teve um jogo no Maracanã que os produtores, que funcionavam como assistentes dos advogados, tiraram foto de um jornal para comprovar o dia e enviaram para o juiz”, continua Trajano.

A batalha também foi para esfera pública. O Clube dos 13, com anuência da Globosat, divulgouuma mensagem de repúdio à TVA, principalmente porque essa emissora estava transmitindo as partidas para as cidades onde elas estavam sendo realizadas, um cláusula que constava no contrato com a Globo, mas não no que havia sido assinada em 1993. A TVA contra-atacou com um anúncio em jornais.

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