O dia em que o lendário goleiro de 82 anos realizou o sonho de defender o time de coração

Por Leandro Stein (Trivela)

Um homem vestido de negro resguardava os companheiros. Puskás, Kocsis e os outros homens da linha de frente construíram a fama da Hungria na década de 1950, distribuindo goleadas. No entanto, o grande time dos Mágicos Magiares também começava por um grande goleiro. Gyula Grosics foi um dos melhores de sua posição. Se os húngaros jogavam pressionando no ataque, contavam com o camisa 1 inovador, que não se limitava a defender apenas em sua área, mas também saía para o jogo e iniciava os ataques. E isso sem deixar de colecionar grandes defesas sob as traves. Assim, o Pantera Negra se tornou uma lenda. Craque que completaria 90 anos nesta quinta.

Nascido em um pequeno vilarejo ao norte de Budapeste, Grosics vivia em uma casa de dois cômodos com sua família, enquanto trabalhava nas minas de carvão. Coroinha na comunidade católica, se preparava para cumprir o desejo da mãe e ser padre. Porém, aos 15 anos, o garoto das categorias de base acabou chamado para defender o gol do Dorogi, time da cidade, que se viu sem opções por causa dos que combatiam na Segunda Guerra Mundial. Transformou o seu destino. “Desde o dia em que joguei minha primeira partida como goleiro do time de Dorog, o futebol se transformou em grande parte da minha vida”, afirmava.

A carreira profissional de Grosics tomou impulso a partir de 1943, mas também acabou interrompida pela guerra. Entre 1944 e 1945, o jovem desapareceu e chegou a ser dado morto pela família. Segundo a história oficial, o goleiro foi obrigado a se alistar em um grupo paramilitar fascista criado pelo governo húngaro e terminou preso pelos Estados Unidos, embora exista uma versão que afirme sua atuação como colaborador do exército nazista. Ao final da guerra, Grosics voltou ao Dorogi, despontando como um dos melhores goleiros do futebol húngaro.

Em 1947, Grosics começou a ser convocado para a seleção húngara. Já em 1950, o arqueiro se transferiu ao poderoso Honvéd. O time do exército era a prerrogativa para manter os melhores jogadores do país treinando juntos e preparando a equipe nacional. Nada mais lógico, então, que contassem com o melhor camisa 1. Grosics não chegava a 1,80 m de altura, mas compensava com muita impulsão e um senso de antecipação incrível. Além disso, a sua habilidade para jogar com os pés se equivalia à dos craques de linha. Assim, ajudou o time dos Mágicos Magiares a conquistar vitórias históricas e a se manter 49 jogos invicto, mas não pôde evitar a derrota para a Alemanha Ocidental na final da Copa do Mundo de 1954.

O goleiro excepcional, contudo, também vivia cercado de controvérsias. Tentou fugir do país em 1949 e acabou em prisão domiciliar, impedido de atuar pela seleção por um ano. Já em 1954, após a derrota no Mundial, passou 15 meses afastado do futebol, suspeito de espionagem e traição. Ainda voltaria ao Honvéd, mas tentou escapar do regime comunista outra vez em 1956, após a Revolução Húngara, com a invasão do país pelas forças soviéticas. Já estava com a família fora do país, participando da famosa excursão do clube pela Europa e pela América do Sul. Chegou até mesmo a firmar um pré-contrato com o Flamengo. Mas voltou para Budapeste, em decisão ainda hoje mal esclarecida.

A partir daquele momento, Grosics deixou o Honvéd e seguiu os últimos dias de sua carreira no modesto Tatabánya Bányász, defendendo a seleção ainda nas Copas de 1958 e 1962. Já aos 36 anos, acertou sua transferência para o Ferencvárosi, clube mais popular do país e do qual era torcedor. O regime, todavia, não permitiu o camisa 1 cumprir seu sonho. Diante da oposição aberta ao governo feita pelo arqueiro, o Ministro dos Esportes barrou a transferência, levando o veterano à aposentadoria.

Ainda assim, a última partida de Grosics aconteceu apenas em 2008, quando já tinha 82 anos. O Ferencvárosi organizou um jogo festivo contra o Sheffield United, para que o octogenário finalmente pudesse realizar sua vontade. Outra vez vestido de negro, Grosics foi para as traves e recebeu a bola, festejado pelos jogadores e pela torcida. Visivelmente emocionado, fazia a última aparição nos gramados. Realizado, foi o último presente em campo na final da Copa de 1954 a falecer. Despediu-se em 13 de junho de 2014, em pleno Mundial, a quatro dias de completar 60 anos de sua estreia na competição.

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