A implosão do sistema

Por Jean Nicolau (Blog do Jean Nicolau)

As ameaças endereçadas a Flamengo e Fluminense são mais um sinal de que a única esperança de progresso do futebol brasileiro reside na tomada do poder por parte dos clubes. A palavra esperança não foi, vale notar, empregada por acaso, já que, ainda que esse golpe de Estado ocorra, não há certeza alguma de evolução, em função dos dirigentes atualmente à frente das principais agremiações do país.

Para recapitular, Flamengo e Fluminense tinham tudo acertado para disputar a nova Liga Sul-Minas, uma alternativa ao decrépito Campeonato Carioca. Mas a participação da dupla tornou-se incerta a poucos dias do início da competição.

Primeiro, veio a negativa da CBF em chancelar a disputa. Agora, surgem as ameaças endereçadas pela federação de futebol do Rio de Janeiro (FERJ) que, graças a manobra realizada em sua última assembleia geral, aprovou regras prevendo punição aos envolvidos em competições não reconhecidas pela CBF.

O contexto atual indica que não há mais caminho para negociação, muito menos para reformas pontuais.

Revolução só não é o termo mais apropriado para definir o que necessita o futebol nacional, porque a própria legislação vigente já prevê uma saída: a criação de ligas independentes das federações ou, em outros termos, a concepção de competições livres do poder constituído.

Vozes contrárias dirão, talvez por conforto, que tais ligas não terão vida longa por não oferecerem vagas às competições internacionais (leia-se: Libertadores e Mundial de Clubes). Um argumento que deixa de ser válido, contudo, desde que se inicie uma real implosão do sistema vigente.

Explica-se.

Não restam dúvidas de que, desde que todos grandes clubes brasileiros encampem o projeto, a televisão aportaria seu (fundamental) apoio.

Como exercício, imagine-se agora que, no cenário mais drástico e improvável possível, todas as agremiações fossem desfiliadas da CBF. Estariam as mesmas, como consequência, privadas das competições internacionais ? Não necessariamente.

Há uma saída palpável, apesar de ainda distante, que ganhou força nas últimas semanas, quando uma primeira reunião entre grandes clubes do continente ocorreu em Montevidéu.

Na pauta do encontro, um pleito por uma melhor distribuição dos direitos de TV relativos às competições sul-americanas. Mas não apenas, já que foi ventilada a criação de uma liga continental, independente da obscura Conmebol.

Se a utopia virasse realidade, e tanto o Campeonato Brasileiro quanto as competições sul-americanas fossem organizados por ligas autônomas, fato é que nenhuma ameaça surtiria efeito; os clubes não teriam mais o que temer. A não ser, naturalmente, seus próprios cartolas.

A má notícia é que não são poucos os clubes influentes que ainda trabalham a serviço do status quo. É o caso, por exemplo, de Vasco e Botafogo, que inclusive apoiam a FERJ na queda de braço contra a dupla Fla-Flu.

Em tempo: o que faria a FIFA se os gigantes sul-americanos deixassem de ser “elegíveis” para disputar o Mundial de Clubes ? Certamente, a implosão do sistema teria efeito dominó.

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