Bonde dos desalojados

Por Sérgio Carvalho (O Negócio é Esporte)

Quando menos se espera, pinta a Rio 2016. Como se tivessem levado um olé do acaso, só agora dirigentes esboçam alternativas concretas para Maracanã e Engenhão. Arrendados por Flamengo, Fluminense e Botafogo, os dois principais estádios cariocas ficarão exclusivamente a serviço das Olimpíadas e Paraolimpíadas entre maio e setembro. Assim já se sabia desde o fim de 2009, quando a capital fluminense consolidou os deveres de casa para acolher os primeiros Jogos Olímpicos sul-americanos. Nem a renitente esgrima entre a dupla Fla-Flu e a federação – decisiva para a precipitação da Primeira Liga –, nem as incertezas políticas, como as urnas rubro-negras no apagar de 2015, justificam a displicência.

Apesar dos avanços, o rumo ao gabarito gerencial dos gigantes europeus tropeça, entre outros contrastes, no tratamento dedicado aos estádios Para medalhões como Real Madrid, Manchester United, Barcelona e Bayern de Munique, donos há uma década das maiores arrecadações, a gestão do estádio integra o tripé das crescentes receitas. Sustenta, ao lado dos direitos de transmissão e da perna comercial (patrocínios e venda de produtos), não só o faturamento, mas a captação de fãs e investidores. Dos 550 milhões de euros anuais arrecadados pelo Real Madrid na temporada 2013-14, segundo a consultoria Deloitte, 25% vieram do chamado match day. Significa o conjunto de receitas obtidas no dia do jogo, desde a bilheteria e o consumo dos torcedores até as áreas de hospitalidade, voltadas principalmente ao público corporativo.

O lado de cá do Atlântico procura modelos capazes de anabolizar o tônus comercial desses espaços. Boa parte dos estádios da Copa tenta atenuar a fatura da vitória de interesses político-eleitorais sobre parâmetros técnicos. Oito deles acumulam prejuízo superior a R$ 150 milhões. Para se tornarem economicamente viáveis, os construídos em regiões onde o futebol é incipiente, como Cuiabá e Manaus, caçam novas fórmulas e parcerias. Não basta diversificarem a programação. Mesmo os associados a praças nobres buscam o formato ideal, em que se tornam âncoras de um cardápio de lazer e serviços. O “novo” Maracanã segue assombrado pela velho desequilíbrio entre o custo anual em torno de R$ 33 milhões e a receita insuficiente para cobri-lo. Sem o estacionamento e o complexo de lojas previstos na concessão celebrada em 2013, a chance de lucro manterá a consistência de uma miragem. Nem pedaladas fiscais dariam jeito.Nos bambas ingleses, cujos estádios viraram templos de hospitalidade, a fatia do match day é ainda maior. Beira 40% da receita do Manchester United, também acima dos 500 milhões de euros por ano. “As arenas não são só espaços esportivos, mas plataformas de relacionamento. Espaços para as marcas potencializarem o relacionamento com os clientes, sejam corporativos ou consumidores finais. As opções são fartas, porém ainda pouco exploradas no Brasil”, avalia o diretor da Futebol Experience, Pedro Pugliese, em entrevista ao programa O Negócio é Esporte (www.onegocioeesporte.com.br). Ao Barcelona, só o passeio interativo pelo estádio (Camp Nou Experince) rende 1,6 milhão de visitantes e 26 milhões de euros por temporada.

Empreendimentos como o multiuso Allianz Parque acendem uma luz. Com média próxima a 30 mil espectadores por jogo, injetou nos cofres palmeirenses R$ 72 milhões ao longo do Brasileiro. Outros tantos milhões resultaram de shows, torneios, visitas e atividades corporativas. Corinthians, Inter e Grêmio ensaiam trilhos comuns, em que pesem os formatos de negócios distintos das respectivas arenas. Enquanto isso, os desalojados ocasionais do Rio perigam perder o bonde. Pegá-lo exige bem mais do que paliativos e compensações ao despejo circunstancial. Mais do que negociar cachês generosos para jogarem, por exemplo, no Mané Garrincha, em Brasília. E não vale culpar o “legado olímpico” pelo atraso.

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