Brasileirão: renda maior com público estacionado e a volta da inflação

Por Emerson Gonçalves (Olhar Crônico Esportivo)

A um primeiro olhar as novas arenas têm exercido um forte efeito sobre o público e a renda do Campeonato Brasileiro.  Todavia, olhando e comparando dados de um período de 10 anos – 2006 a 2015 – fica claro que esse efeito positivo é verdadeiro apenas sobre os valores de bilheterias, graças ao aumento no valor do ingresso médio e das receitas totais. Esse título tem um viés negativo que destoa do teor geral do trabalho, o que comentarei no final. Vocês verão agora, integralmente, através dos gráficos e tabelas, o trabalho da BDO Brazil, coordenado pelo Pedro Daniel, com o levantamento dos públicos e receitas dos 380 jogos do Brasileirão 2015.

Evolução em 10 Anos

O primeiro ano dessa comparação – 2006  – foi um tanto quanto fora da curva em relação aos que se seguiram e seus números de público e renda jogam o conjunto de 10 anos para baixo. No próximo trabalho, no final de 2016, teremos uma visão melhor e mais realista da década analisada, que terá seu início em 2007. O Campeonato de 2015 foi o primeiro realizado do início ao fim com as novas arenas construídas para a Copa do Mundo operando plenamente e esse fator pesou positivamente para os números gerais.

Em comentário para o jornal O Estado de S.Paulo, que publicou os principais resultados desse estudo em sua edição de ontem, Pedro Daniel disse: “As novas arenas tiveram 135% mais torcedores. Isso é prova de que o torcedor gosta de ser bem tratado, mesmo que isso signifique pagar um valor amor. O público aceita pagar mais para ter um tratamento melhor.”. O jornal destacou o aumento de 7% no valor do ticket médio de 2014 para 2015, assim como a receita recorde de R$ 236,2 milhões nesse campeonato.

O peso das novas arenas

As próximas tabelas mostram com precisão o impacto das novas arenas. As oito maiores médias de público vêm desses estádios construídos para a Copa do Mundo (exceto o do Grêmio), e somente em 9º lugar aparece um estádio “das antigas”, o Morumbi. Pesou para essa posição, também, o fraco desempenho do seu proprietário, o São Paulo, no Campeonato Brasileiro. Dos dez maiores tickets médios, nove foram gerados pelas novas praças esportivas. Enquanto os velhos estádios tiveram rendas médias de R$ 268.633,00, as novas arenas tiveram uma média de R$ 1.053.129,00 de bilheteria.

A distribuição por horários

Dos 380 jogos do Brasileiro 2015, somente 25 foram realizados no tão atacado horário das 21h50 ou 22h00, e equivaleram a 6,5% do total dos jogos. Esse número, uma vez mais, desmente o velho mito que o “horário” é responsável ou um dos principais responsáveis, pelo baixo público nos jogos brasileiros.

Ao mesmo tempo, 2015 consagrou as onze da manhã do domingão como o horário líder de público: os 31 jogos realizados nesse horário tiveram a excelente média de 24.049 pagantes. Média excelente para os padrões brasileiros, é bom deixar claro, e nada menos que 43,7% maior que a média geral do campeonato.

Entre os clubes, um trio disparou

Corinthians, Palmeiras e Flamengo dispararam nesse campeonato à frente dos demais, tanto em público total como médio e também nas receitas com bilheteria. Os torcedores de Palmeiras e Corinthians pagaram mais caro por seus ingressos, seguidos pelos rubro-negros cariocas. Os três clubes mandaram seus jogos em novas arenas e dois deles em casas próprias. Isso começa a deixar mais claro que os clubes do Rio de Janeiro, especialmente Flamengo e Fluminense, precisarão pensar cuidadosamente nessa questão para o futuro.

Destaques do Campeonato

Veremos 30 destaques a seguir. Desses, 27 estão ligados às novas arenas. Para os demais estádios sobram apenas 3 destaques: Morumbi, com o segundo maior público e Serra Dourada e Independência com os  6º e 7º maiores tickets médios. Todas as 10 maiores bilheterias foram geradas em jogos disputados nas novas arenas.

No meio do caminho tinha uma inflação… Tinha uma inflação no meio do caminho

A inflação se fez presente com força digna de nota a partir de 2013, com cerca de 6%. Detalhe: não vou usar o número oficial, quebradinho, e sim uma aproximação, que leva a 6% em 2013, 7% em 2014 e impensáveis (até pouco tempo atrás) 11% em 2015. Uma taxa de 11% significa que o ganho nominal no ticket médio de 2015 foi, na verdade, negativo em relação ao valor médio de 2014. Ou seja, a inflação de onze “comeu” o aumento de sete. Com a aplicação de correção pelo IGP-M, a maior renda bruta deixa de ser a de 2015 para ser a de 2014 corrigida – R$ 238,6 contra R$ 236,2 milhões.

Público estacionado

A média de ocupação de lugares dos nossos estádios é baixíssima. Fica entre 20% e 40% na maioria dos estádios e jogos. Há índices maiores em algumas das novas arenas – opa, ei-las aqui outra vez – e alguns casos de campanhas ruins também contribuíram para a pobreza da ocupação de nossos estádios. Como vimos no segundo gráfico desse post e também está presente na tabela acima, se tirarmos 2006, um ano atípico, fora da curva, como disse inicialmente, veremos que o público total do Brasileirão girou entre um mínimo de 5,0 milhões em 2012 e 6,8 milhões em 2009. Tivemos, ainda, 6,6 milhões em 2007 e 6,4 milhões em 2008.

Em 2015, graças ao reforço das novas arenas, o público do Brasileiro conseguiu igualar o de 2008, seguido por 2014 – que já teve várias das novas arenas em operação normal. São números baixos. Em 2013/2014, a Premier League teve um total de 13,9 milhões de torcedores em seus estádios, com ocupação média de 98%! A Bundesliga teve um total de 13,2 milhões de torcedores, mas em apenas 306 partidas contra as 380 da EPL. E idêntico nível de ocupação: 98%! Os jogos da MLS – sim, a liga americana do soccer – teve ocupação média de 91% no mesmo ano, contra 78%  da liga espanhola. Esse índice espanhol foi o dobro do brasileiro no mesmo ano: 39%.

Uma inflação na casa de dois dígitos altera de forma significativa a vida de todos nós, das empresas e, naturalmente, dos clubes de futebol. Voltando a um passado já remoto e nunca vivido em termos práticos pelos brasileiros nascidos depois de 1994 (na verdade, nem os brasileiros nascidos no início dos anos 80 têm noção clara e prática do que seja inflação), temos a partir de agora que considerar o fator inflacionário em tudo que seja feito. Isso já era necessário antes, nem se discute, mas doravante ganha um peso muito maior, muito mais decisivo.

O Campeonato Brasileiro da Série A de 2015 mostrou que ainda estamos patinando, sem conseguir sair do lugar no tocante à presença dos torcedores. Isso, naturalmente, considerando a visão de 10 anos.  A euforia que tomou conta de muitos dirigentes foi provocada pelo crescimento real sobre os números da pior quadra de público de nosso principal campeonato, o período de 2010 a 2013, inclusive. Não crescemos, apenas recuperamos terrenos perdidos.

É essa colocação que merece e precisa ser debatida pelos clubes, pelos dirigentes da federação nacional, pela imprensa. Como crescer? Crescer de fato, não apenas em estádios novos. Como manter e ampliar as receitas de forma real, ou seja, crescendo mais que a inflação? Tudo isso sem esquecer as novas necessidades e obrigações trazidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte.

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