Futebol, boemia e confusão: Há 90 anos, Brasil e Argentina decidiam a Copa América em pleno Natal

Foto: Reprodução
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Por Leandro Stein (Trivela)

Ano novo, carnaval, páscoa. Jogador de futebol não costuma ter muito descanso em datas festivas, independente do que ela represente. Nos países cristãos, no entanto, o Natal costuma ser sagrado no futebol. Mas não é assim em todos os esportes – no basquete, por exemplo, a NBA conta com uma de suas rodadas mais importantes justo em 25 de dezembro. E nem mesmo no futebol foi sempre assim. Já imaginou um Brasil x Argentina em pleno Natal? Válido pela Copa América? E ainda colocando a taça em jogo? Pois aconteceu, há 90 anos.  Cerca de 30 mil testemunhas presenciaram o jogo histórico em Buenos Aires.

Durante as suas primeiras décadas, o “Campeonato Sul-Americano de Seleções” era disputado anualmente. Foi assim de 1916 a 1929, com exceções apenas em 1918 e 1928. Entretanto, nenhuma outra edição foi mais esvaziada do que a de 1925. Em tempos nos quais os países ao norte do continente não participavam, Uruguai e Chile optaram por não entrar na disputa. Enquanto os uruguaios viviam conflitos internos na federação, os chilenos desistiram diante dos maus resultados em 1924. Assim, o torneio acabou limitado a Argentina, Brasil e Paraguai, que se enfrentaram em turno e returno a partir de novembro.

O calendário de jogos se estendeu durante semanas. E guardou o desfecho justamente para 25 de dezembro. A Argentina chegou à última rodada com dois pontos de vantagem sobre o Brasil, fruto da goleada por 4 a 1 no primeiro confronto. Porém, aquela derrota causou uma punição disciplinar sobre os jogadores, acusados de boemia em Buenos Aires – “na véspera do jogo contra os argentinos, tínhamos passado a noite rodando pelos cabarés, em meio a muita bebida, tango e chicas”, confessou o zagueiro Floriano Peixoto, em sua biografia.

Com a vigilância bem mais rígida do técnico uruguaio Ramón Platero, que comandou o elenco naquela ocasião, os brasileiros venceram os paraguaios pela segunda vez e seguiram com chances para a rodada decisiva. Precisavam vencer o clássico para se igualar aos argentinos e forçar um jogo de desempate. O que criava um enorme clima de decisão no tradicionalíssimo Estádio Sportivo Barracas, em Buenos Aires.

O palco da primeira volta olímpica e do primeiro gol olímpico não trazia boas lembranças ao Brasil. Em 1920, a Seleção disputou o seu primeiro amistoso em Barracas sob protestos. A equipe visitante entrou em campo com apenas sete jogadores, depois que um jornal local os chamou de “macacos”. Em partida que sequer é considerada oficial, a vitória da Argentina por 3 a 1 foi o de menos. E tão condenável quanto a atitude do veículo foi a reação do presidente da república, Epitácio Pessoa. Na volta ao estádio de Barracas para o Sul-Americano de 1921, o governante pediu para que “jogadores de pele mais clara e cabelos lisos fossem convocados”. De novo a Seleção perdeu para a Albiceleste, desta vez por 1 a 0.

A discriminação institucionalizada cessou a partir de 1922, quando o governo parou de interferir na miscigenação do elenco e o Brasil conquistou o Sul-Americano disputado no Rio de Janeiro, em meio às comemorações do centenário da Independência. Entretanto, o histórico desfavorável aumentava as tensões para o duelo decisivo em 1925. O time liderado pelo lendário “El Tigre” Friedenreich enfrentaria um clima pouco amistoso no segundo clássico com os argentinos.

A torcida da casa abarrotou as arquibancadas para a final. E, embora tenham recebido os jogadores sob aplausos, não dava para esperar que se contivesse. O Brasil teve que aturar a pressão dos argentinos, que vibravam e urravam em Barracas. Apesar disso, o ambiente não pesou contra a objetividade dos brasileiros no início do confronto, partindo para cima do time da casa e buscando a vitória. Friedenreich abriu o placar aos 27 minutos, enquanto Nilo ampliou a vantagem três minutos depois.

Naquele momento, o Brasil ia ficando com a taça. E, com os ânimos exaltados, o zagueiro Muttis deu uma entrada desleal em Friedenreich, pelas costas, além de insultá-lo. El Tigre não aceitou a agressão e revidou com um pontapé sobre o argentino. Gerou uma briga generalizada entre os jogadores. Além disso, alguns torcedores invadiram o campo na tentativa de agredir os atletas. Os atletas foram protegidos por um círculo formado pela polícia e por soldados do exército presentes.

O jogo permaneceu paralisado por cinco minutos. Os demais jogadores convenceram Friedenreich e Muttis a se abraçarem, dando carta branca para o árbitro Manuel Chaparro seguir em frente, sob ânimos mais calmos também nas arquibancadas. Porém, a hostilidade fez com que a Seleção se desencontrasse em campo. A Argentina diminuiu a diferença ainda no primeiro tempo, com Cerrotti. Já no início da etapa complementar, Seoane anotou o tento que garantiu o empate por 2 a 2. Que consagrou o título à Albiceleste.

Só que o jogo não acabou com o gol, embora o nível técnico não fosse dos melhores. Os brasileiros ainda precisaram lidar com a tensão. Segundo o livro ‘Deuses da Bola – 100 anos da seleção brasileira’, pedras foram arremessadas contra dirigentes brasileiros e o diretor técnico Joaquim Guimarães terminou atingido por um saco de água na cabeça. “Pelo menos não foi de mijo”, afirmou, depois do confronto. Cenas de um jogo histórico. Parte dos jornais da época e os dirigentes, contudo, apaziguavam o ocorrido. Ainda assim, brasileiros fizeram passeatas de protesto na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, diante do que algumas publicações chamavam de ‘A Guerra de Barracas’.

Todavia, a Seleção demorou a ter uma chance de revanche. O Itamaraty decidiu que o melhor era se ausentar do Campeonato Sul-Americano – conforme relatam Antônio Carlos Napoleão e Roberto Assaf no livro ‘Seleção brasileira: 1914-2006’. Além disso, por conta das costumeiras brigas entre paulistas e cariocas na CBD, o Brasil disputou apenas quatro partidas até a estreia na Copa do Mundo de 1930, todos amistosos contra clubes estrangeiros. O reencontro com a Argentina só aconteceu na volta à Copa América, em 1937. Em clima mais brando, a seleção de Adhemar Pimenta perdeu por 1 a 0 para a forte Albiceleste de Sastre, Varallo e García. Eram treinados justamente por Seoane, o carrasco do Natal de 1925.

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