Espanhóis e portugueses discutem a noção de uma Liga Ibérica: o que isso pode significar?

Por Leandro Stein (Trivela)

O Campeonato Espanhol e o Português começaram a planificar nesta quarta um projeto em conjunto. Presidente da liga espanhola, Javier Tebas se encontrou com Pedro Proença, que assumiu o comando da liga portuguesa. Discutiram a ideia de criar nos próximos quatro anos uma Liga Ibérica. Segundo o site oficial dos lusos, “um encontro único, ao mais alto nível, que visou estreitar laços e desenvolver iniciativas futuras numa parceria inédita”.

A proposta de criar uma Liga Ibérica ainda não está clara. Os dirigentes afirmam que todos os moldes estão ainda em aberto, visando uma perspectiva de geração de receitas e de maior internacionalização. Isso não indica, no entanto, que a liga fundiria os atuais formatos do Campeonato Português e Espanhol, ou se englobaria datas extras em um diferente formato – como, por exemplo, aconteceu com a Liga Real Escandinava, uma copa de clubes criada em meados dos anos 2000.

Sem fórmulas indicadas, é difícil indicar os possíveis caminhos da Liga Ibérica. Entretanto, a ideia crua possui os seus prós e os seus contras. Embora a união aumente a perspectiva de lucros para os dois países, a fusão das ligas poderia custar aos bolsos dos clubes, com menos vagas para disputar as competições europeias. Além do mais, a redistribuição dos times em diferentes divisões também cortaria na carne daqueles que perdessem a chance de disputar a elite. Em economias marcadas pela má gestão e das grandes dívidas públicas dos clubes, cair de nível poderia relegar camisas tradicionais à decadência.

Outro ponto de resistência óbvio que se coloca está sobre a quebra da história e das tradições. Não apenas por tentar reescrever a trajetória que as ligas estabeleceram desde o último século. Os clubes portugueses, principalmente, poderiam se tornar meros coadjuvantes de Real Madrid e Barcelona. Por mais que as finanças possam crescer como um todo, é difícil imaginar lisboetas e portistas alçados a um patamar tão alto no cenário doméstico. Teriam que se contentar a ver os títulos bem mais escassos.

No mais, a discussão parece também manobrar para outro debate que se torna forte na Península Ibérica: a independência da Catalunha e a saída do Barcelona do Campeonato Espanhol. De certa forma, a Liga Ibérica seria um pretexto para passar por cima das regras atuais e, no futuro, unir três nacionalidades diferentes: portugueses, espanhóis e catalães. Afinal, por mais que bata o pé, a liga espanhola perderia muito sem os blaugranas.

E é difícil também determinar qual seria a postura da Uefa, diante da reação em cadeia que a fusão poderia ocasionar. As ideias de união já discutidas em outras ligas ganhariam força – por exemplo, entre Inglaterra e Escócia ou entre Holanda e Bélgica – o que nem sempre se tornaria sustentável às federações envolvidas. Pensando em um processo mais geral, poderia até reacender a noção de uma Super Liga Europeia, imaginada em meados da década passada e que fez a confederação europeia temer pela concorrência à Champions. Por enquanto, muitas possibilidades e poucas confirmações. Mas que, certamente, enfrentariam resistência ao longo do quadriênio prometido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *